quinta-feira, abril 22, 2010

Virgulas


Descubro vírgulas no teu corpo toco-as
busco uma palavra um horizonte
o romper do sol a maravilha…
sei onde o teu mar envolvo-o nos meus lábios
e adormeço menino nos teus dedos
tão ternos tão suaves
hoje nascerei de ti...

mário contumélias

tristeza


(para a Ana, passando pela Ana Rita)


Entristecem-te os olhos a tua ilha chora…
Ai, quanta mágoa o oceano envolve Ai, quantas
mortes escondidas pelas levadas Ai corpos frios
enregelando os ossos Ai árvores caídas,
casas desfeitas, gente que ficou sem nada…
Entristecem-te os olhos a tua ilha chora
É tanto o mar!

Pouco on-line


É verdade que me afasto. Que deixo cair o blog no silêncio, quase campa rasa e cruz a condizer. Mas amo este azul. E acabo sempre por voltar.

sábado, junho 06, 2009

Evocação de Maio


1.
Primeiro foi o teu perfume.
O teu cheiro a laranjas e Maio,
o teu rosto molhado, a nitidez
do teu soriso, o coração inquieto
:sangue e fogo. Delírios misturados.
Uma alquimia estranha e proibida...

2.
Mais tarde os teus cabelos vieram
dar à pedra uma nova vibração. Eras tu.
Espaço lunar, tempo de estrelas
e águas deslumbrantes. Ouro
e seiva. Outono quase certo ou uma casa.
Eu mergulhava até ao coração…

3.
Os animais foi só mais tarde.
Os dois quietos no fascínio de ser
assim possível. Cúmplices,
quedávamo-nos serenos ante a maravilha...

4.
Ninguém sabe onde o vento
poisa as suas asas. Hoje bebemos
água fresca na fonte que há nos dedos.
A substância do teu cheiro em Maio
enche-me os bolsos de doçura.
Sei que os dias são longos,
que há abismos, que as noites
doem muitas vezes Mas
as palavras nascem como as rosas...

mário contumélias

sexta-feira, maio 29, 2009

Sempre Abril. Mesmo em Maio.



De madrugada, o telefone acorda-me, estridente. Do outro lado, o sub-chefe de Redacção de “O Século” diz-me: «é melhor vestires-te e vires já para o jornal; parece que há por aí umas movimentações militares»... Estremunhado, dispenso o duche, visto-me, e avanço. Já no jornal, mandam-me para a Praça do Comércio. Ainda não há povo, apenas militares. Um homem de “cara fechada”, firme nas ordens, está no comando; venho a saber, pouco depois, que é de Santarém, Salgueiro Maia de seu nome. Outros oficiais, suponho, vão chegando e empunhando a arma, mesmo à civil. O dia nasce, ainda não há povo, mas começam a aproximar-se os primeiros curiosos, que os “cacilheiros” depositam no Cais das Colunas; outros vêm do interior da cidade. Está tudo calmo. Por mim, não sei como conter a emoção; onde ir buscar forças com que garantir a objectividade jornalística que me pedem. Um pouco mais tarde, as coisas aquecem: há forças militares na Rua do Arsenal; são fiéis ao governo, segreda-se. Salgueiro Maia avança com os seus homens para o princípio da rua. Há, agora, frente a frente, militares feitos com o passado e um capitão “com saudades do futuro”. Como é que vai ser? Morre tudo aqui? No passeio do lado do Tejo, mais ou menos a meio da Rua das Naus, estou na via das balas mas nem dou por isso. Alguém me diz que é um brigadeiro “reaça”, que não desarma, que quer mesmo ir para a luta. Não tenho forma de confirmar, mas percebo que se parlamenta. Finalmente, ao fim de um tempo que me parece infindável, os homens do regime rendem-se ou desistem, não sei bem. Começa ali, o “25 de Abril” sem sangue. Respiro fundo e resolvo acompanhar os militares a caminho do Carmo, Rua da Conceição acima. Agora já há povo por todo o lado, gente que sorri, gente que ri, que aplaude. Quinta-feira de festa. Enterrado o medo, nascerão amanhã as primeiras flores nos canos da G3, arma que eu, “passado á peluda” um mês antes, tão pouco estimava. Os soldados sobem a rua, ainda com algum cuidado, cosidos ás paredes. Diz-se que a GNR não se rende e vai dar luta, mas as pessoas fazem fila dos dois lados da via, indiferentes ao perigo; a sede de liberdade abre as bocas, há tanto tempo cerradas. Toda a gente sobe ao Carmo. Passo por um GNR de mauser ao ombro, perdido no meio de tudo; passamos todos; o espanto na cara dele dava um “boneco”, onde é que para o Alfredo Cunha? Já o perdi, foi á procura do “25 de Abril” do seu incontornável talento; aquele é repórter até aos dentes, penso. No Largo do Carmo, há uma multidão que cresce e se junta. As ruínas, as árvores, o largo, a rua, está tudo pejado de gente. Ouve-se que Marcelo Caetano está lá dentro, com alguns ministros; que um dos altos dignatários chora de medo; mas ninguém se rende. Seja lá como for — mais tarde há-de chegar António de Spínola, para o cair formal do pano sob o regime que durante quarenta e oito anos fez perder Portugal e amordaçou os portugueses — é claro para todos que o amanhã começou. Um cidadão aproveita o impasse para ler o “Diário de Notícias”; manchete atrevida para a ordem vigente ontem, mas demasiado temerosa para o dia que vivemos: “Eclodiu um movimento militar”, titula o jornal. Podia titular: Re-Nasce Portugal. Naquele dia, quinta-feira, 25 de Abril de 1974, esta afirmação era uma verdade florida, aplaudida. Os homens destinados a fazer a guerra tinham, de madrugada, na aparente frieza dos tanques, no calor do gelado metal das espingardas, devolvido um país á História, e entregue ao povo o respeito por si, que lhe fora roubado. É por isso que este texto não tem rigor científico, sociológico, histórico, jornalístico. É, apenas e ainda, o texto de uma emoção que me ficou cá dentro e que constitui parte do mais valioso património da minha vida vivida; está-se nas tintas para a objectividade. Uns dias antes daquela manhã como nenhuma outra, o Zeca tinha-me dito no Coliseu: “Eh, Pá! Já nem os filhos da puta dos Pides salvam os gajos”. Tinha razão. Em 25 de Abril de 1974, como, dias depois, no primeiro 1 de Maio em Liberdade, Lisboa também soube ser Grandola. Que seja capaz de não perder, nunca, essa força. Que sejamos capazes.

mário contumélias
foto: alfredo cunha

domingo, maio 24, 2009

rosas 44

o genoma, já se sabe, não tem cor. e o amor?
o amor é cor-de-rosa por isso, às vezes, tem espinhos
coisas menos boas, misturadas com carinhos.

sábado, maio 23, 2009

planeta


as duas faces de marte são astros no céu
os teus olhos são o sistema solar... há coisas
assim claras na sua infinita complexidade.

moinho


o moinho faz de conta que conheceu Quixote
em dias turbulentos... agora, mais calmo
caiado de branco, tem boas velas
chama a atenção mas o moinho não
mói seja o que for quando o reconstruiram
partiram-lhe a mó é por isso que é
um moinho de enganos.

mário contumélias

escreve-me com as tuas mãos

morres onde? no frio da pedra? na indiferença do aço?
nas ruas do sangue? porque é nos metais que intensamente
vivemos. crucificados sim! não, não acredites nisto que te digo
o tempo corre sobre o meu corpo e deixa marcas, sulcos
rasto de dores tristes rios de prata noites de amor que não
aconteceram mãos acetinadas. às vezes uivo, como te contei
uma vez por outra, a lua chega e traz suspiros, ais, lágrimas
coisas que o pudor deve guardar. é então que sou um lobo
gosto de morder, de agarrar com os dentes, de ser por inteiro
possuído.porque morres? diz-me o que é isso de morrer? em
que praia distante? como se faz? como fazes? abres talvez as
pernas e deixas que impulsivo te penetre o mar.

mário contumélias

13-01-2007

segunda-feira, dezembro 31, 2007

só a penumbra...

só a penumbra envolve o longe
no perto choca a imagem de uma mulher velha
nas frias arcadas do convento
Contudo, há vida nas árvores
sob a grua que se estende no betão
estamos vivos talvez
mas nem um orgasmo solta as amarras
deste quotidiano injusto
só a penumbra nos salva desfocados.

mário contumélias

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Uivo

poderia dizer: quero apenas desnudar-te...
tira a máscara. mostra o teu nome verdadeiro.
não tenhas medo. voo para lá do corpo. o pormenor
não me detém. não sou o que guarda pétalas no
fundo das gavetas. o que escreve cartas a si próprio...
vivo intensamente no suave tecido do teu ventre
por isso despe-te. constrói a minha fala. ensina as
minhas mãos. não. não quero apenas desnudar-te.
farei de ti a minha lua. a noite espera. eu sou
o uivo. ouve-lo no vento?

mário contumélias

domingo, dezembro 10, 2006

o gato

O gato espreita no azul Sereno
sabedor o gato espreita no azul
Esconde mistérios suspensos nos olhos
com que fita Nos olhos o gato esconde
Encostado a um canto silencioso
o gato sabe tudo
Discreto sem metáfora
o gato é apenas um gato.

mário contumélias

mistério

há um mistério no almíscar cheira a tapetes
a deserto a tendas árabes cheira a ópio
a mulheres entre serpenteando a
viajantes do longe cheira a uvas
seduz a tez da pele escura seduz
o movimento o tempo esquece-se de ser
o espaço é só um sonho não há palavras...
na boca das tardes enlanguesce ainda o gesto
e já nos olhos do céu se adivinham estrelas
tudo é inominado só o cheiro persiste
só ele diz só ele transfigura o instante...
falas de canela de especiarias talvez
de antigas rotas de piratas sabedores
de mundos talvez de cavalos
fugidios e negros galopando
tudo o mesmo mistério...
moura encantada és sei-o agora
água que fala fonte que mata
a sede e resta sequiosa almíscar mineral.

mário contumélias

sexta-feira, julho 14, 2006

alfama

a rua respira uma Lisboa
antiga Proletária
é o basalto do chão,
as "porta com porta" baixas
os vasos de flores entre soleiras
os velhos que caminham lentos
a ausência de bulício
a morte que sorri discreta a um canto.

mário contumélias

terça-feira, março 15, 2005

enlevo 2

É, sobretudo, o mar. Ou, talvez, a falésia.
O cão grande, pachorrento, pedindo companhia,
ávido do passeio pelas dunas. Os pequenos arbustos,
as ternas flores inesperadas, flores de espanto, as
pedras várias, sabedoras. Também o ribeiro, o cantar
das águas escondidas, misturado no gorjeio dos
pássaros que os pinheiros bravos envolvem
em mistério. Assim o planeta se desvenda. Assim
o corpo se dispersa, pura energia,
em lágrimas e riso.

mário contumélias

enlevo

enlevo triste este
em que medieval te sentas
e eu fico só a olhar-te.
à distância, as aves
são finitas, o mármore
ressoa. os sentidos
adormecem mansos. há
noites em que a memória
fita. há árvores,
dispersos céus. as vozes
na floresta enchem tudo
de um delírio verde.
em mim e em ti se perde
este luar de março...

mário contumélias

quarta-feira, março 09, 2005

carta

estás aí. desse lado da luz. encostada, enrolada no corpo. quis sempre descobrir-te. desvendar-te as posturas. adivinhar-te os pensamentos. beber-te as emoções. mesmo as mais secretas. sobretudo, as mais secretas. cada dia, um caminho. um vocábulo. uma palavra guardada. um tesouro para o depois: um dia, quando o frio ameace. ou quando o medo... talvez no triste entardecer das aves. talvez quando o mar não for mais um desafio. ou o campo recuse encher-se de papoilas...
suavemente, deslizas. a luz esmorece. por isso, escrevo sol, ainda uma vez. ou uma carta. as palavras que procuro na busca de dizer-te, pura música... nas minhas veias, só o teu sangue aquece.

mário contumélias

domingo, março 06, 2005

água

escuta é o som da água
branca, rumorosa, cavando o seu caminho na encosta
ouve: o ciclo está a chegar ao fim. algures a pedra ficará
mesmo depois dos depois. depois da chuva nas árvores
dos gestos ternos, suaves, das mais breves alegrias
(a pedra, a água, a pedra na água, a água na pedra)
escuta: ouve: vocábulos, silêncios
voos, peixes... (a música, a água, a música da água,
a água da música). corda, a corda, acorda é o
ciclo, não a lua, não o abraço, sim o abraço
cuidado. o sol tem mil bocas. ávidas. perversas.
sentes-lhe a fome? sentes? escuta: era
uma vez um menino, era uma vez um rapaz (faz faz...)
: era uma vez uma princesa no seu castelo encantado,
disfarçado numa rocha : era uma vez um guerreiro com
uma espada de medo para matar o dragão : era uma vez
uma fada que queria entrar na estória, ficar na fotografia,
no teu encanto feliz. escuta: é o som da água
(a pedra, a água, a pedra, a pedra na água,
a água na pedra) ouve...

mário contumélias

terça-feira, março 01, 2005

as mãos

súbito, o vazio. o segredo do corpo. o tempo inquieto.
lentas, as mãos percorrem-te. curiosas, primeiro.
sabedoras, depois. aprendem depressa, as mãos. viajam.
há pequenas curvas em que se demoram. descobrem coisas.
acendem desejos. riem, até. as mãos, senhoras do instante,
pura energia. poços de água e de luz. tão cheias de sol.

mário contumélias